Sistema Capitalista e seus Modelos Econômicos




O SISTEMA CAPITALISTA E SEUS MODELOS ECONÔMICOS
Por Marco Antônio Campo Dall'orto

Antes de iniciarmos nosso texto sobre os modelos econômicos e seus partidos políticos, precisamos comentar sobre o próprio sistema capitalista, sua História e suas principais características.

SISTEMAS PRÉ-CAPITALISTAS

O Capitalismo é um sistema econômico desenvolvido a partir das necessidades da classe burguesa ao longo da História europeia. Os comerciantes sempre existiram, desde que as primeiras cidades se tornaram uma opção de convivência dos humanos a partir do 10º milênio antes de Cristo. No entanto, eles não recebiam prestígio social nas sociedades antigas. Aquelas sociedades situadas na Ásia, Oriente Médio e nordeste da África, tinham sua economia baseada no trabalho compulsório. O exemplo do Egito antigo é clássico. Naquela região, imperava o Modo de Produção Asiático: o faraó controlava o Estado e através de um modelo de “Redistribuição e Reciprocidade”. Cobrava trabalho e bens agrícolas de todos os cidadãos. Ao agricultor era obrigatório destinar parte da produção para o Estado. Os homens, em alguns meses do ano, eram obrigados a trabalhar em obras públicas de drenagem, barragem, construção de estradas, prédios públicos e de templos religiosos. Em troca, o Estado garantia a ordem social e a alimentação em tempos de seca ou desastres naturais. Muito frequentes àquela época.

Os povos clássicos (gregos e romanos), por serem eminentemente povos guerreiros, possuíam um sistema econômico baseado na escravidão: o Sistema Escravista. Em uma guerra, os dois lados da batalha possuem o objetivo principal de derrotar seu oponente, isso significa colocar sua vida em jogo para defender sua cidade. O mesmo faz seu oponente, coloca a vida dele em jogo para aniquilá-lo e vencer a batalha. Bom, se os dois lados oferecem a vida pela sua cidade, consequentemente, os dois lados possuem como objetivo imediato conseguir tirar a vida de seu oponente. Sendo assim, segundo a visão clássica, o exército vencedor possui o direito sobre a vida dos perdedores, uma vez que aquele que foi derrotado tinha como meta matá-lo. Assim, os que não eram mortos recebiam uma compensação: não seriam mortos, porém perderiam sua liberdade em vida e trabalhariam obrigatoriamente para os vencedores até a morte natural: passariam a ser escravos dos vencedores. É interessante ressaltar que o suicídio era a forma encontrada pelos perdedores de não serem escravizados.

Após a fragmentação das sociedades clássicas com a subordinação da Grécia à Roma e a transformação do Império Romano em diversos reinos bárbaros, um novo sistema econômico dominou a Europa: o Sistema Feudal. Em uma sociedade predominantemente rural, os estamentos eram dois: os donos de terras e os servos (trabalhadores agrícolas submetidos aos nobres).

A servidão surgiu na Europa, quando no fim do Império romano graves crises na economia e na política se intensificaram: inflação, desemprego, violência e a alta insuportável dos impostos urbanos, acabou obrigando ao povo buscar refúgio no campo. Uns criaram pequenas vilas e outros foram se abrigar em terras de nobres romanos. Este movimento foi lento, gradual, e se deu por vários séculos consecutivos. A sociedade feudal clássica só se efetivará na França entre os séculos 10º e 12º.

Sendo assim, o sistema feudal era baseado na proteção militar que os nobres guerreiros que se misturaram aos romanos ofereciam aos pobres plebeus. Em troca desta proteção, estes servos ofereciam trabalho na produção de alimentos. Claro que, com o passar do tempo não havia mais opções para nenhum estamento, muito menos mobilidade social entre eles: nasceu servo, sempre servo; nasceu nobre, sempre nobre.

É neste contexto da Idade Média europeia que um grupo de pessoas livres transitava entre as vilas independentes, entre os camponeses livres, entre as pequenas cidades e entre os nobres: os comerciantes. Estes profissionais se encarregavam de trazer produtos de lugares longínquos para os europeus, ou mesmo de intermediar a troca de produtos entre eles. Com o passar o tempo, algumas questões passam a ameaçar a estrutura social medieval, como a melhoria nas técnicas de produção de alimentos que gerará um excedente populacional, o contato com os povos comerciantes do Oriente Médio será decisivo para o aumento de rotas comerciais entre o oriente e a Europa. Logo novas feiras (pontos de venda de produtos) surgem. Feiras viram cidades comerciais, as cidades existentes passam a abrigar profissionais como sapateiro, ferreiro e comerciantes. Essas cidades protegidas por muralhas, recebiam o nome burgo (fortaleza). Os comerciantes passaram a se chamar burgueses, por sua grande quantidade, domínio político e econômico que exerciam nos burgos. A população cresceu, a urbanização foi inevitável. Dentro dos burgos, comerciantes se uniam para dominar a produção de certos produtos: as corporações de ofício. Na verdade eram era uma forma de preservar a venda e a qualidade dos produtos proibindo estranhos e não especializados produzir sapatos ou até mesmo presuntos.

Enfim as várias corporações de ofício regulava a produção, a venda e os próprios profissionais. Um aprendiz lavava décadas para se tornar um mestre de corporação. Os produção era sempre a mesma, prezando pela qualidade do produto e pela técnica empregada. O mercado consumidor estava restrito ao burgo e as encomendas eram praticamente fixas. Não havendo necessidade de propaganda, inovação ou mesmo busca por novos mercados. Ser um mestre de ofício era um título que demandava de uma vida de dedicação.

Com o passar do tempo algum comerciantes que não estavam integrados às corporações passaram a utilizar-se do trabalho de camponeses ou pessoas livres do campo para produção: os intermediários. Esses compravam matérias-primas em lugares a preços baixos, entregavam a diversas famílias de outras localidades e buscavam o produto manufaturado em troca de um pagamento em espécie ou em mercadorias, revendendo a produção nas vilas e cidades. Posteriormente, esses intermediários decidiram agrupar em um local só, geralmente um galpão, toda a matéria-prima, todas as máquinas utilizadas para a produção e contratar mão-de-obra para trabalhar nestes espaços. Fazendo com que o trabalho se deslocasse e não mais a produção. Assim, surgem as primeiras fábricas. Durante séculos, este modo de produção passou a se intensificar.

De modo que será a Inglaterra será o primeiro reino onde os interesses do comércio se aliarão aos interesses dos nobres. Em virtude de um ativo comércio exportador de tecidos para o continente permitirá a Inglaterra investir na criação de ovelhas em grandes propriedades nobres para a produção de tecidos em fábricas urbanas, tendo como objetivo final a troca de tecidos por metais com nações coloniais, principalmente, como Espanha no século XVI e Portugal no século XVIII. Com um Estado voltado para a produção, suas práticas estarão voltadas para proteção e investimentos para classe burguesa.

Durante o século XIX, a Inglaterra dominou outras regiões e formou o Império Britânico, com possessões em todo o planeta. Seu comércio era global e sua riqueza se tornou o foco de todas as nações. Gradativamente os Estados europeus se tornaram burgueses. Claro, disputas políticas e direitos tradicionais precisaram ser delineados até que a dominação da classe burguesa em cada nação fosse inquestionável.

A partir de meados do século XIX, estes Estados europeus burgueses passaram a se beneficiar das consequências da racionalização da produção a nível nacional, dos investimentos estatais e da defesa dos interesses produtivos e financeiros de cada país. A riqueza passou a ser flagrante, a produção atingiu números impressionantes. Porém, não havia distribuição de renda. A riqueza estava restrita às classes dominantes.

LIBERALISMO CLÁSSICO

O Liberalismo Clássico foi a primeira expressão do sistema capitalista maduro (quando a sociedade passou a ser predominantemente dividida entre duas classes sociais: a dos donos dos meios de produção - os burgueses, e os vendedores de mão-de-obra - os proletários (trabalhadores). Seus principais teóricos foram Adam Smith (A Riqueza das Nações), David Ricardo e Thomas Malthus. Defendiam um mercado livre, sem a interferência do Estado. A principal razão era dar total liberdade de ação aos empresários, pois assim saberiam quais seriam as melhores formas de produzir e de vender. Segundo eles, somente um mercado livre através da livre concorrência entre os produtos e as empresas chegaríamos a uma produção racional e eficiente. Porém, neste contexto, a qualidade do trabalho não era levada tão em conta. Os trabalhadores europeus do século XIX, imersos no Liberalismo Clássico, eram explorados ao extremo. Eram considerados peças da produção, mão-de-obra (plenamente substituível). Não haviam férias, descanso semanal, salário extra de final de ano, muito menos piso salarial. O patrão pagava o que queria, uma miséria. A jornada de trabalho era extenuante, cerca de 20 horas diárias. As mortes eram constantes e amputações corriqueiras.

É através deste modelo econômico que em 1929 os Estados Unidos passaram por uma grave crise, que contaminou todos os países que dependiam deles para venderem seus produtos. A crise de 29 foi gerada por uma superprodução em virtude das exportações estrondosas que a 1ª Guerra Mundial requeria. Os países europeus precisavam importar durante a guerra, pois suas indústrias estavam completamente voltadas para a produção de guerra. Com o término da guerra, as indústrias americanas se voltaram ainda mais para seu mercado consumidor interno de massa. Porém a produção ainda era maior do que a demanda e a crise foi inevitável naquelas condições.

O governo americano então lança um programa de recuperação econômica, chamado “novo acordo” (New Deal), onde o Estado orientaria a economia, planejando um crescimento econômico através de obras públicas que geravam empregos e maior consumo, reativando a produção privada. Mais empresas vendendo - mais empregos; mais empregos - mais consumo. Nesta mesma época, o “Entre - guerras”, os Estados europeus abandonaram o Liberalismo em busca de uma orientação do Estado para a economia, através de planejamentos nacionais. Na verdade, todos passaram a utilizar práticas do modelo socialista soviético de planos de Estado que visavam orientar a economia de cinco em cinco anos: os “Planos Quinquenais” estavam fazendo a Rússia crescer a cerca de 30% ao ano, enquanto que a Europa estava destruída pela guerra e os EUA em uma grave crise econômica. Ambos com crescimento negativo.

KEYNESIANISMO (Estado de Bem-estar Social)

Em 1933, John Maynard Keynes publicou seu livro “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Neste livro, Keynes teorizou um novo modelo econômico onde o papel do Estado era fundamental para o desenvolvimento econômico das nações. Segundo a teoria keynesiana, o Estado deve buscar através de sua política econômica o pleno emprego da população. A permanência de trabalho para todos dentro de um dado território seria a chave para um consumo interno volumoso, que aumentaria a renda total. O aumento dos consumidores permitiria o aumento dos empreendimentos e do enriquecimento da classe burguesa. Esse ciclo geraria um aumento significativo na coleta de impostos do Estado, aumentando sua capacidade de gerar mais emprego, renda e riqueza.

O segundo ponto significativo na política keynesiana é o Estado de Bem-estar social. Esta nomenclatura é o resultado de um Estado que assume a responsabilidade no oferecimento de serviços essenciais gratuitos à sua população, como educação, saúde, previdência e crédito para a aquisição de imóveis, veículos e eletrodomésticos. Além de amparar o trabalhador por meio de uma série de leis trabalhistas como: férias, 13º salário, jornada de oito horas diárias, seguro-desemprego, salário mínimo, previdência social, fundo de garantia, entre inúmeras outras práticas.

O Keynesianismo passou a ser utilizado nos EUA após a especulação financeira, aliada a uma estrutura produtiva excedente de 1929, que gerou uma grave crise econômica mundial. O New Deal (Novo Acordo), sob o governo de Franklin Delano Roosevelt de 1933 até 1937, foi um amplo plano de obras públicas com o objetivo de gerar milhões de empregos e gerar consumo interno aliado à destruição de enormes estoques de alimento com o objetivo de aumentar seus preços. Medidas que retomaram a lucratividade para o setor agrícola e industrial. A seguir, na década de 50 em diante, viu-se nos EUA a adoção plena das políticas de Bem-estar social. Na Europa, a década de 30 foi palco de Estados fortes e impulsionadores do desenvolvimento econômico. À exemplo temos a Alemanha, Inglaterra, Itália e França na vanguarda destas ações. Na Europa, no entanto, ressentimentos pós-1918 levou-os à Segunda Guerra Mundial em 1939 que devastou o continente.

A consequência direta destes acontecimentos foi o surgimento de duas grandes potências militares e econômicas: Os EUA [Grandes financiadores dos países europeus em guerra e exportadores de produtos de todo gênero para a Europa - e do outro lado a União dos Países Soviéticos (URSS). Gigante econômico e militar, concomitantemente, e principal responsável pela derrota da Alemanha nazista]. Na Europa capitalista pós-Hitler, o capitalismo foi definido como sistema econômico, juntamente com a aliança natural com os EUA. Por isso, um grande programa de apoio financeiro internacional foi dedicado à reconstrução europeia nos moldes do Estado de Bem-estar social: o “Plano Marshall”.

Em suma, EUA e Europa já na década de 50 e posteriormente na década de 60 viveram o que se denominou de “Era do Ouro”, devido aos incentivos estatais para a estabilidade econômica e ampara social de seus habitantes. Foi um período onde o crescimento econômico foi expressivo. A luta ideológica e político-militar entre EUA e URSS foi propulsora de investimentos em áreas significativas para o desenvolvimento de novas tecnologias produtivas, militares e científicas. A propaganda e os benefícios de uma vida estável e consumista era o meio utilizado pelos Países centrais (EUA e Europa) para convencer seu povo de que o capitalismo era vantajoso para todos em oposição ao socialismo soviético.

A CRISE DO PETRÓLEO

Em 1961, os maiores produtores de petróleo do mundo se organizaram para combater o cartel das principais companhias de petróleo dos EUA e Europa, que se recusavam a pagar mais pelo barril do óleo. Arábia Saudita, Venezuela, Irã, Iraque e Kuwait se reuniram em Caracas para fundar a OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo). Aumentando gradativamente seus ganhos, a OPEP resolveu elevar os preços do barril em 400% em cinco meses no ano de 1973. Tal medida acarretou um verdadeiro colapso na oferta do produto e no abastecimento mundial. A consequência direta foi uma grave crise econômica, que afetou em cheio os Estados de Bem-estar social dos países centrais. Todo arcabouço de benefícios sociais dependiam da geração de receita através do consumo da população e das exportações destes países. Como os custos para a aquisição de petróleo se elevaram absurdamente, as contas públicas nacionais se desrregularizaram-se. O modelo econômico keynesiano chegava ao fim.

É importante frisar que o Keynesianismo nunca chegou a ser adotado por países de terceiro mundo, que nesta época viraram satélites dos EUA ou URSS, sendo submetidos à pobreza ou à governos ditatoriais que possibilitavam o livre acesso dos modelos culturais e dos setores industriais e financeiros em seus territórios. O golpe militar brasileiro de 1964 na verdade foi apoiado pelos Estados Unidos e pela elite brasileira, que queria garantir a aliança com os americanos e garantir o capitalismo como sistema econômico triunfante em território nacional. Não perdendo assim, o poder econômico e político em território brasileiro.

NEOLIBERALISMO (Estado Mínimo)

Em 1944 Friedrich August Von Hayek lançou um de seus livros mais famosos: “O Caminho da Servidão”. Neste livro, Hayek argumenta que o Estado de Bem-estar social desperdiçava dinheiro ao investir nas pessoas. Segundo ele, os investimentos deveriam ser canalizados para o processo produtivo. Assim, a riqueza interna de uma nação se multiplicaria. Em 1962, Milton Friedman lançou seu livro “Capitalismo e Liberdade” enumerando os benefícios de um modelo econômico (Neoliberalismo) onde o Estado não interviesse nas ações das empresas e deixasse o mercado se autorregular com base na doutrina do “laissez-faire”. Segundo os neoliberais o Estado deve ser mínimo. Para isto os serviços oferecidos à população devem se resumir ao mínimo necessário, as empresas estatais deviam ser privatizadas e através de uma integração global (Globalização), a livre concorrência faria com que os preços e os salários se mantivessem em níveis compatíveis com as necessidades dos trabalhadores e das possibilidades dos empresários.

As ideias neoliberais passaram a ser adotas pelo mundo a partir da Crise do Petróleo e mais intensamente na década de 80 e tendo seu ápice na década de 90, através da liderança do Império Americano. Era uma forma prática de governos não gastarem tanto em benefícios sociais. Resumindo, o Estado deixava de investir no Bem-estar social, relegando o povo à suas próprias condições financeiras. Quem tinha renda para adquirir educação, saúde, previdência da iniciativa privada faria a partir de então. O crédito passou a ser direcionado primordialmente para a iniciativa privada. Os resultados imediatos foram um intenso comércio global, a divisão internacional do trabalho, a diminuição das barreiras comerciais e a construção de blocos econômicos como o MERCOSUL, a União Europeia entre outros.

Em 2002, a ONU fez um levantamento sobre os resultados das políticas neoliberais no mundo e chegou a conclusão de que tal modelo somente beneficiou os países desenvolvidos e que os países pobres amargaram um significativo aumento da pobreza. A pobreza aumentou, juntamente com esta, a violência e os problemas sociais à ela agregados, como o tráfico de drogas e o aprofundamento do crime organizado. Em suma, o Estado de Bem-estar social foi capaz de aumentar a riqueza e diminuir as desigualdades sociais, enquanto que o Neoliberalismo aprofundou a pobreza e a desigualdade entre ricos e pobres no âmbito das pessoas e das nações.

Porém, o próprio Estado Keynesiano já não poderia ser reabilitado devido suas fraquezas perante o cenário externo. Já que o exemplo da Crise do Petróleo de 1973 denunciou a fragilidade deste modelo econômico. A solução seria encontrada através de um agregamento entre Keynesianismo e Neoliberalismo a partir da virada do 3º milênio.

O NEOLIBERALISMO NO BRASIL

No Brasil, as políticas neoliberais tiveram início com o Governo Collor (PRN), presidente eleito em 1989 e empossado em 1990. Seu opositor àquela época era o líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva (PT). De um lado estava Collor, defendendo os interesses da elite brasileira, buscando integrar o Brasil na política internacional Globalizante, liderada pelos EUA. Do outro, Lula, líder político que visava implantar práticas socialistas em solo brasileiro. A campanha foi acirrada, porém o império midiático construído no tempo da Ditadura Militar (1964-1985), a Rede Globo, foi eficiente em incutir no povo brasileiro a imagem de Collor como sendo o presidente perfeito e denegrindo a imagem de Lula como um revolucionário despreparado. O engajamento político da Globo foi flagrante. Porém, para um povo que lhe oferecia quase 100% de audiência diária e era majoritariamente ignorante às lides políticas, Collor foi eleito. O ano anterior a posse de Collor tinha fechado com inflação de 1764%. Sua primeira medida nos primeiros dias de governo foi confiscar a poupança de todos os brasileiros acima de Cr$ 50.000,00 (cinquenta mil cruzeiros) por um prazo de dezoito meses.

Sua política neoliberal, de ingresso das empresas internacionais ao mercado brasileiro com poucas barreiras protecionistas, levou a economia brasileira a um colapso. Os resultados do primeiro ano de Governo Collor foram: a demissão de quase um milhão de pessoas e inflação anual galopante de 1200%, a quebra de centenas de milhares de empresas, que passaram a ter que concorrer diretamente com produtos internacionais, mais baratos e de melhor qualidade. Além disso, Collor congelou os salários e modificou a forma de ganhos dos setores financeiros e as formas de tributação das empresas e pessoas. A sociedade brasileira reagiu. A regressão econômica passou a ser evidente, consequência direta do fracasso de sua forma de governo.

Tais políticas assustaram, também, a própria elite, que o apoiou em sua candidatura, no entanto, esta mesma classe social passou a temer pelo futuro de seus ganhos. Deputados e senadores, juntamente com a Rede Globo, passaram a vasculhar os meandros do governo de Collor e não tardaram em encontrar um desvio. Logo Collor estava sendo acusado de corrupção. Seu destino foi selado pelo próprio Congresso Federal (que diplomou sua posse em 1989, aprovou o confisco da poupança, além de inúmeros outros descalabros): o “Impeachment” (impedimento). Em 1992, o presidente Collor foi impedido de continuar na presidência, dando lugar a seu vice: Itamar Franco (PMDB).

O Governo do presidente Itamar Franco, foi mais ameno e teve a ajuda dos norte-americanos, que através do FMI emprestava dinheiro ao Brasil e dava as coordenadas de nossa política econômica. Segundo alguns estudiosos, foi sob este contexto, que o Plano Real foi concebido. Sendo eminentemente um plano econômico de estabilização econômica, o Plano Real foi arquitetado por inúmeros economistas do Brasil e dos Estados Unidos. Seu porta-voz foi um professor universitário e senador que foi convidado por Itamar para ser seu Ministro da Fazenda: Fernando Henrique Cardoso de Mello (PSDB).

Em 1º de julho de 1994 a nova moeda brasileira foi lançada: O Real. Inicialmente valia mais que o Dólar americano. O Plano Real estabilizou a economia e derrubou a inflação para a casa de um dígito por mês. O Brasil entrava em uma nova etapa. Com a economia estabilizada, o neoliberalismo poderia realmente ser desenvolvido e aprofundado em solo brasileiro pelo futuro presidente da república.

Fernando Henrique Cardoso (FHC) deixou seu cargo de Ministro da Fazendo do Presidente Itamar Franco e se candidatou a presidência em 1994. Como antes, Luis Inácio Lula da Silva foi candidato do PT. Novamente FHC foi o candidato das elites brasileiras, o candidato neoliberal, o candidato da Rede Globo. Em oposição Lula era o candidato das propostas socialistas. Lula pregava o não pagamento do FMI, a Reforma Agrária e a transferência de renda; enquanto que FHC pregava o ingresso do Brasil rumo à Globalização. Seu slogan era baseado no Plano Real, que dava certo e encantava a todos pelo novo estilo de vida que proporcionava aos brasileiros. Diferentemente do passado, os salários não perdiam valor ao longo do mês e o fato de que o povo tinha o mesmo poder de compra durante todo o mês foi uma propaganda arrebatadora. Declaradamente os meios de comunicação brasileiros, e em especial a Rede Globo, foram encarregados de promover o novo estilo de vida estável e todo o mérito foi canalizado para uma única pessoa: Fernando Henrique Cardoso. Como o esperado, ele venceu as eleições em 1994 e passou a governar em 1995.

O Governo FHC foi Marcado pela diminuição expressiva do Estado. Serviços básicos como educação e saúde passaram a ser sucateados pelo governo neoliberal de FHC. As empresas estatais foram quase que em sua totalidade entregues à iniciativa privada. A exemplo, temos a Vale do Rio Doce, o setor de telecomunicações, a Embraer (construtora de aviões) e por pouco a Petrobras não foi privatizada, não fosse a incontestável lucratividade que esta empresa possuía ano após ano, desde sua criação. Estradas foram privatizadas, portos e inúmeros serviços passaram a ser oferecidos com qualidade somente pela iniciativa privada.

Foi o tempo do surgimento de milhares escolas particulares, a classe média brasileira em massa migrou para elas, pois o vestibular passou a ser uma prova de memória e estas escolas se especializaram neste método de ensino quantitativo. O “Programa Todos na Escola” foi imposto de forma brusca. O resultado foi que a classe mais pobre da população inchou as escolas públicas em pouco tempo e a falta de verbas para a educação impulsionou a qualidade do ensino ao abismo. Para evidenciar suas “conquistas” perante o FMI, o Governo FHC praticamente proibia a reprovação e a evasão escolar. O resultado foram salas com mais de 50 alunos por turma, professores escravizados a uma situação de descontrole em seu ambiente de trabalho e cidadãos analfabetos se formando no Ensino Médio e por vezes ingressando no Ensino Superior com péssima formação escolar. Em contrapartida, somente os alunos das escolas particulares conseguiam ser aprovados nos vestibulares das universidades federais. O resultado imediato foi a continuidade perversa de pobres empobrecendo e ricos enriquecendo.

No cenário internacional, o Governo FHC aprofundou seus laços comerciais com os EUA e pretendeu fundar a ALCA (Associação de Livre Comércio das Américas). Não conseguiu devido aos grandes protestos contrários por parte de empresários que sofreriam com a concorrência de produtos americanos de da população impulsionada por partidos de oposição da época. Os resultados da política externa de FHC foi que quase 80% das exportações brasileiras eram destinadas aos EUA. Deixando nossa nação dependente da economia e da política norte americana.

Na saúde, o ministro de FHC foi José Serra, político experiente, aclamado pela elite paulista e pelos veículos midiáticos. Em sua gestão conseguiu aprovar uma série de medidas em benefício do povo e para os grandes laboratórios internacionais, como os remédios genéricos, o controle do vibrião do cólera, aumentou a cobertura de vacinas entre a população, projetou a formação de agentes comunitários que ofereciam medicina preventiva entre outras. Porém, não conseguiu mudar a situação calamitosa em que se encontrava a saúde no Brasil. Saúde de qualidade, só na iniciativa privada através dos planos de saúde particulares. Gastos que oneravam o salário da população brasileira, principalmente os mais idosos e da classe média.

A previdência social (aposentadorias) não era bem vista pelo Governo FHC. Segundo ele, o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) era um desperdício, pois os gastos com aposentadorias pelo Estado eram imensos e nunca gerava créditos ao Estado, somente gastos. Foi nesta época que várias reformas nas aposentadorias fizeram com que os brasileiros tivessem que trabalhar por muito mais anos (homens 65 anos e mulheres 60 anos). O sistema de contagem do valor das aposentadorias também mudou: antes se aposentava com o valor do último salário, no Governo FHC um novo cálculo da média passou a entrar em vigor. Diminuindo consideravelmente o valor da remuneração dos aposentados, aumentando o tempo de trabalho das pessoas para terem direito a se aposentar.

No Governo FHC nenhuma universidade federal foi criada, as Escolas Técnicas Federais foram gradativamente se transformando em escolas de Ensino Médio para a Classe Média Alta. O Brasil devia 15 bilhões de dólares ao FMI e não possuía nenhum dólar de reservas cambiais. A desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres aumentou consideravelmente. A violência se transformou em um problema gravíssimo em todas as cidades brasileiras, permitindo com, que as drogas passassem a atrair os jovens pobres para o mundo do crime em grande escala. O Governo de Fernando Henrique Cardoso de Mello (PSDB) foi o último governo brasileiro neoliberal. Seu partido e seus aliados perderam as eleições de 2002 e se tornaram uma oposição acéfala e com uma ideologia econômica tida como injusta e ineficiente para resolver os problemas da sociedade.

No entanto, há uma grande diferença entre o mundo da política e os meios de se vencer eleições em um país onde a novela é mais importante no cotidiano familiar do que a economia; onde programas de TV interessam mais a maioria do que as relações internacionais; onde a vida dos artistas é mais atraente do que a própria política. Isso possibilita que, no Brasil, a ignorância política do povo sirva aos interesses dos políticos corruptos, de uma mídia vendida para as grandes empresas e de uma elite acomodada aos seus bilhões de ganhos mensais em face à pobreza de milhões de brasileiros. O povo que não compreende a política é escravo da política. O povo que vota seguindo discursos e não a teoria econômica e a classe social vinculadas a cada partido, vota sem saber em quê, nem porquê. Uma vez que todos os discursos são iguais, servem para convencer. São propagandas construídas com o objetivo de denegrir a imagem do opositor e evangelizar as próprias imagens.

NEOLIBERALISMO vs KEYNESIANISMO

O modelo político-econômico internacional americano, principalmente na década de 90, foi a globalização. Uma forma de integrar os países ao redor do mundo em um complexo comercial com poucas barreiras comerciais dominado por eles. No entanto, após 11 de setembro de 2001, os americanos se sentiram impulsionados à uma guerra mundial contra ao que chamam de “Terrorismo Internacional”. Porém, desde 2001, somente oito pessoas morreram sob ataques terroristas em todo o mundo, enquanto que 400 morreram de alergia a pasta de amendoim dentro dos próprios EUA.

Segundo alguns, esta “Guerra ao Terror” foi a forma encontrada pelo Império Americano para perpetuar seu monopólio militarista no mundo e o aumento gigantesco de sua renda interna através da fabricação de centenas de milhares de armamentos bélicos por empresas americanas. Os armamentos são comprados pelo Estado americano e, através dos impostos dos seus contribuintes, uma gigantesca soma é desviada dos cidadãos para as empregas militares. A “Guerra ao Terror”, na mídia americana e mundial, seria o meio de camuflar os interesses dos EUA em integrar todos os países produtores de petróleo ao sistema financeiro internacional dominado pela Europa e EUA. Por isso precisam destruir Iraque, Irã, Afeganistão e Venezuela.

Sendo assim, as fronteiras não poderiam mais estar completamente abertas à pessoas e produtos como na fase da globalização. Uma nova histeria dominou os noticiários do mundo inteiro. Pessoas normais passaram a ser identificadas como suspeitas, mães passaram a ser terroristas pela mídia e pelos governos ao redor do mundo. Direitos individuais foram solapados nos EUA e Europa. Ficaria proibido embarcar em voos com líquidos de qualquer espécie e sistemas de Raios X e scanners em três dimensões passaram a equipar os aeroportos de todo o mundo. As bagagens passaram a ser revistadas, as bolsas reviradas. Tudo em nome de um medo sem sentido real, já que em 10 anos somente 8 pessoas morreram em ataques terroristas. O filme “Zeitgeist”, de um americano e ganhador de inúmeros prêmios consegue expor muitos desses detalhes. Outro filme que fez muito sucesso: “11 de Setembro Fahrenheit”. Também produzido por um americano que denuncia a Guerra do Iraque como uma aquisição de jazidas de petróleo pelos EUA é bem revelador. O
Iraque e o Afeganistão foram invadidos e as empresas americanas dominam sua economia, como o Estado Americano domina sua política. Em nenhum destes dois países foram encontrados nenhum terrorista, muito menos armas químicas.

DESENVOLVIMENTISMO (O Keynesianismo Brasileiro)

Novos rumos para as economias nacionais passaram a entrar em voga. Na América do Sul, uma onde de presidentes contrários às doutrinas neoliberais passaram a ser eleitos. No Brasil, Lula; na Venezuela, Hugo Chaves e na Bolívia, Evo Morales. Estes novos governos, tanto no nosso continente, quanto em outras regiões, passaram a tomar medidas que visavam diminuir os impactos que as políticas neoliberais causaram em seus respectivos Estados. Os próprios americanos elegeram um democrata negro que interveio na economia em 2008 para salvar a economia americana, que sem rédeas do Estado, provocou uma enorme crise mundial. Em contraste com os países centrais, são os países em desenvolvimento que são os mais vigorosos na utilização do novo modelo econômico que passou a ser utilizado a partir de 2001: o Desenvolvimentismo (ou Nova Via/3ª Via).

No início deste século, um especialista projetou o futuro de quatro países como futuro países desenvolvidos em um espaço de 3 ou 4 décadas: Os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Segundo os especialistas internacionais, são países que já possuem uma grande cadeia produtiva, um parque industrial solidificado, um mercado consumidor interno ampliado, movimentam grandes porcentagens de seu Produto Interno Bruto (PIB) em exportações, possuem capacidade em inovação tecnológica e são portadores de grandes territórios: áreas gigantescas para a agricultura, com subsolos ricos em reservas minerais essenciais para o progresso de uma nação industrial. No entanto, todos os quatro países possuem problemas sociais graves: pobreza, analfabetismo, e sérios problemas na distribuição de renda. Especialmente entre estes, a China ainda não é uma democracia. Todos crescem em uma média de 5% a 8% ao ano de seu PIB. A China é um caso à parte, pois cresce há mais de 10% ao ano por décadas.

Por ser uma exceção, o Estado forte da China é um grande exemplo para este crescimento dos BRIC’s, pois planeja e toma as diretrizes necessárias para o crescimento econômico futuro. Os outros três, são democracias e convivem com oposições político-partidárias dentro de seus países. A China tem um único partido que governa o país a mais de trinta anos, limitou a fecundidade da mulher para um filho somente e em trinta anos, 400 milhões de chineses deixaram de nascer. Mesmo sendo a China o país mais populoso da Terra com 1,6 Bilhões de habitantes. A Índia segue seu curso com 1,2 Bilhões de habitantes, Rússia possui 145 milhões e Brasil com 170 milhões de habitantes. Evidentemente, todos estes 4 países planejam o futuro através da economia. Pretendem se tornam países de peso internacional e mais ricos.

O GOVERNO LULA (O Estado de Bem-estar contestado)

No caso do Brasil, a posse de Lula (PT) em janeiro de 2003, representou esta mudança. Quando este era candidato era temido pelas elites brasileiras, pelos investidores internacionais e pelos meios de comunicações, liderados pela Rede Globo. Foi sob este prisma que o candidato Luiz Inácio Lula da Silva redigiu a “Carta ao Povo Brasileiro”, que na verdade foi uma carta à elite brasileira. Nesta carta ele anunciava suas atitudes caso ganhasse as eleições. Lula, basicamente, deixou claro que renunciava seu passado socialista e propôs a continuidade da política econômica de FHC. Acabou vencendo e passou a governar em 2003.

Seu primeiro projeto foi o “Fome Zero”. Queria acabar com a fome no Brasil; posteriormente lançou o programa “Luz para Todos”, onde levaria energia elétrica para todos no Brasil; posteriormente lançou o programa “Bolsa Família” onde pagava uma pequena quantia para que as mães se comprometessem a exigir frequência escolar para seus filhos. Com uma política econômica visando a estabilidade, a poupança em reservas internacionais e no investimento em educação e infraestrutura a través do programa de obras públicas chamado “PAC” conseguiu fazer com que a economia se tornasse sólida e crescesse intensamente desde seu primeiro ano de governo.

Lula diversificou os países onde as exportações brasileiras se dirigiam, tornando o Brasil menos vulnerável à política americana. Construiu 10 novas universidades federais e 214 novas Escolas Técnicas federais. Aumentou os impostos dos mais ricos e transferiu renda por meio de milhares de programas sócias. No Governo Lula se tornou comum os estágios para estudantes, cursos profissionalizantes, novas formas de acesso às universidades federais como o ProUni, as cotas sociais, financiamento de graduações pelo governo. Sob o governo Lula multiplicaram, no Brasil os cursos de mestrado e doutorado em todas as universidades federais. O Enem passou a ser um meio de ingresso ao Ensino Superior. Foram criados mais de 13 milhões de novos empregos com carteiras assinadas em oito anos (FHC conseguiu 2 milhões em 8 anos). Os novos investimentos do Governo Lula, a sua política econômica baseada no Desenvolvimentismo trouxeram menos desigualdade entre ricos e pobres (mais de 30 milhões saíram da pobreza). O aumento dos concursos públicos vem melhorando os serviços do Estado para o povo. A Polícia Federal foi revitalizada e com inteligência passou a ser eficiente, desmantelando o crime organizado e prendendo políticos corruptos e banqueiros criminosos. Nem o próprio partido do presidente foi poupado pelo crime de compra de votos. Fato que foi usado pela imprensa para golpear a popularidade do presidente Lula. Porém as evidências são claras e Lula encerra seu governo possuindo a maior popularidade na História do Brasil entre os presidentes: 80% de aprovação popular.

Fica evidente que hoje no Brasil existem duas grandes correntes políticas atreladas as suas ideologias políticas. O PSDB defendendo o Neoliberalismo e o PT seguindo o Desenvolvimentismo. A grande questão é se os dois partidos políticos conseguirão expor suas doutrinas econômicas para o povo durante o processo eleitoral e se o povo vai conseguir compreendê-las. Afinal, novela é mais interessante ao nosso valoroso povo que foi por séculos jogados à exclusão pela elite que sempre dominou a política e nunca fez questão de ensinar política para suas crianças, principalmente para as mais pobres, detentoras dos valiosos votos do futuro.


O GOVERNO DILMA (O início do ódio)